Batistão
Primeiramente uma breve história da sua vida estudantil e profissional.
Estudei em escolas públicas, e em 1988 me formei em Publicidade e Propaganda pela Cásper Líbero, em São Paulo. O ano em que entrei na faculdade coincide com meu primeiro trabalho publicado (1985). Foi um desenho de Fidel Castro, que saiu na Folha de S. Paulo. Meu primeiro e único trabalho lá, mas também o pontapé inicial da minha carreira, que
acaba de completar 20 anos.

Qual sua maior dificuldade num desenho?
Depende do desenho e da ocasião. Tenho um pouco de resistência em desenhar qualquer coisa que não seja a figura humana. O desenho sai, mas com mais sacrifício. Por vezes, me atrapaho bastante numa caricatura ou ilustração, e nessas horas a experiência parece não ajudar muito. Também tenho problemas na escolha das cores.

Como foi sua transição do método tradicional (papel, lápis, tinta, etc) para os softwares?
Difícil. Tinha uma resistência enorme ao computador, que na verdade era o medo de ser rejeitado por ele. Depois de três cursos de Photoshop que tive no jornal, fui vendo que dava pra encontrar um jeito de colorir digitalmente meus desenhos. Encontrei uma fórmula, que não fui eu quem inventou, mas que me permite trabalhar sem ter um domínio total dos recursos. Estou ficando velho, e as coisas ficam mais difíceis de entrar na cabeça.

Como você avalia o cenário brasileiro para os ilustradores? O que você acha que está faltando para profissionalização e consequente valorização da profissão?
Acho que há mais gente boa que espaço. As exposições organizadas pela SIB (Sociedade dos Ilustradores do Brasil) deram uma mostra da qualidade dos ilustradores brasileiros, com trabalhos de nível internacional. Talvez o que falte seja um sentido de categoria aos ilustradores, que têm uma atividade meio solitária por natureza. A própria SIB parece ser um bom começo, para que a categoria se una e busque seus objetivos em conjunto.

Como é seu processo criativo ?
Falando especificamente de caricaturas, estou sempre atento a fotos e personagens que possam render um bom desenho. Mesmo observar as pessoas no cotidiano é um bom exercício de inspiração. Procuro também acompanhar o trabalho dos colegas, que sempre são fonte de aprendizado.
Qual seu processo até chegar na arte final?
Começa com a pesquisa de referências, que é essencial. A escolha da foto ideal, ou do conjunto de fotos, é determinante para o sucesso da caricatura. Depois, passo a rascunhar. Às vezes, são necessários diversos esboços até chegar a um que esteja bom. Outras, o desenho sai de primeira. Não tem muita lógica. Uma vez definido o desenho, eu o transfiro para um outro papel, com o traço limpo, e escaneio. O colorido é feito no Photoshop. Há trabalhos também que finalizo de maneira totalmente manual, com lápis de cor.

Como é o dia-dia numa redação de jornal?
Há o trabalho rotineiro, ou seja, os espaços fixos que temos de ilustrar. Lemos os textos e passamos a idéia para o papel. E há também ilustrações para matérias eventuais, ou caricaturas, que é o que mais gosto de fazer. Alguns trabalhos são passados com alguma antecedência, o que permite uma elaboração maior. Outros chegam em cima da hora. Nesses casos, vale a experiência, porque não dá tempo de errar.

O que você gosta de ouvir enquanto desenha?
Música brasileira, uma das minhas paixões. Tenho cerca de 2.500 discos, e sempre trago comigo cinco ou seis pra ouvir enquanto trabalho. Sou movido a música.
Quais artistas (pintores/ ilustradores/ designers) você admira? Quais são suas influências?
Tomei a liberdade de juntar as duas perguntas, porque todos os artistas que admiro, antigos ou atuais, exercem influência sobre meu trabalho. Começando por meu irmão Alceu, designer e sócio da produtora de computação gráfica Vetor Zero, meu primeiro professor de desenho. Misturando tudo, Loredano, Trimano, irmãos Caruso, Cárcamo, Rocha, Benício, Norman Rockwell, Al Hirshfeld, Carlinhos Müller, Marcelo Pinto, Gustavo Duarte, Orlando, Kipper, Fernandes, Cau Gomez, Dálcio, Carvall, William, e muitos outros que poderia citar. Eu me ative mais aos caricaturistas, por ser a arte para a qual dirigi meu trabalho.

Quem são as figuiras de maior destaque hoje em dia na ilustração mundial e em paralelo no Brasil?
Estou mais a par do que acontece por aqui. Posso dizer que todos os
brasileiros que citei acima estão nessa condição.
Como você avalia o trabalho do Ministério da Cultura no governo Lula?
Sou um grande admirador do Gil como artista, e acho que ele teve coragem ao assumir o ministério, com toda a exposição a ataques inerente ao cargo. Acredito que ele seja bem-intencionado, mas não é fácil gerir a cultura neste país, principalmente pela parca parcela de verba que lhe é destinada. No geral, estou achando essa gestão um tanto discreta, sem grandes avanços ou retrocessos.
Como você descreveria seu estilo e seus trabalhos?
Não sei fazer essa definição. Estou batalhando para aprender e evoluir no meu ofício. Talvez essa definição tenha de ser dada por quem acompanha meu trabalho. Eu o vejo de perto demais.

Como você decidiu que era com ilustração que você gostaria de trabalhar?
Desenho desde muito cedo , e era natural projetar para o futuro o trabalho nessa direção. Sabia que precisava aproveitar essa minha tendência, mas não sabia que seria exatamente como ilustrador. Fiz faculdade de Publicidade e Propaganda, por ser uma área afim, mas o destino me guiou para o jornalismo e o ramo editorial, onde ganho menos dinheiro, mas sou feliz.

Qual conselho você daria para quem quer engressar nessa profissão?
Respondi a essa mesma pergunta alguns meses atrás. Então, permita-me plagiar a mim mesmo e reproduzir a resposta. Desenhar muito, muito mesmo. Ler muito também, e ser curioso. Inspirar-se nos seus ícones, até copiá-los no começo, mas abandonar a cópia o mais depressa possível. Buscar obstinadamente o estilo próprio, o traço autoral. Esse é o maior patrimônio que o artista carrega consigo ao longo da carreira. Ouvir críticas de quem conhece e assimilá-las. E acreditar sempre no próprio trabalho
Quais são seus projetos futuros, você tem algo em mente?
Meu maior projeto é fazer um livro de caricaturas. Ele vem sendo adiado porque não sei bem por onde começar. Quem sabe para o ano que vem.
Site: http://baptistao.zip.net
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